Profª. Drª. VERA TERESA VALDEMARIN

 

CURRÍCULO COMENTADO

 

Em 1976 iniciei o Curso de Pedagogia na Universidade Federal de São Carlos e me transferi para a esta Faculdade em 1978, concluindo aqui minha graduação em 1980. Além de freqüentar a UNESP como aluna, comecei a trabalhar  como Escriturária da Administração Geral do Campus de Araquarara em 1977, onde ocupei o cargo de Secretária do Grupo Administrativo do Campus até 1983, quando, deixando a carreira administrativa, ingressei na carreira acadêmica exercendo a função de Auxiliar de Ensino no Departamento de Ciências da Educação desta Faculdade, lecionando a disciplina Filosofia da Educação para o Curso de Pedagogia. Foi nesta Faculdade, portanto, que desenvolvi toda minha carreira acadêmica.

Em 1986 defendi a Dissertação de Mestrado (O artifício do natural: ensaio sobre a naturalização do histórico nas teorias pedagógicas contemporâneas) na Universidade Federal de São Carlos-SP; em 1994 defendi a tese de Doutorado O liberalismo demiurgo: estudo sobre a reforma educacional projetada nos Pareceres de Rui Barbosa, na Faculdade de Educação da USP-SP. Nesse mesmo ano me efetivei como Professor Assistente Doutor. Em 2001 obtive o título de Livre-Docente na área de Filosofia da Educação aqui na Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara-UNESP, com a tese Estudando as Lições de Coisas: Estudo sobre os fundamentos filosóficos do método de ensino intuitivo.

Durante o período de realização do Mestrado, tive uma experiência muito marcante que foi o aprendizado do trabalho coletivo ao qual dei continuidade aqui na FCL. Participei  primeiramente do Núcleo Regional de Ensino, onde aprendi muito sobre a docência (na Universidade e nos outros níveis de ensino) e sobre pesquisa/intervenção. Participo ainda do GEICD - Grupo de Estudos Interdisciplinares sobre Cultura e Desenvolvimento, que deu origem ao Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cultura e Educação onde desenvolvo atividades de pesquisa e formação de alunos. Outro trabalho coletivo que me proporcionou muito aprendizado e satisfação foi a Coordenação do Conselho de Curso de Pedagogia, no qual convivi com um grupo de professores e alunos bastante engajados no processo de reformulação curricular.  

Embora ao longo de todos esses anos na Universidade eu tenha lecionado várias disciplinas, Filosofia da Educação para o Curso de Pedagogia é aquela que define minha área de atuação docente e meus investimentos como pesquisadora. Tenho tentado compreender a contribuição da Filosofia da Educação na complexa tarefa de formação do educador como um dos elementos que possibilitam o exercício da crítica e da construção de novas perspectivas; o conhecimento da herança pedagógica herdada do passado  e suas possibilidades de transformações futuras; a compreensão da atividade docente como tributária de um conjunto de valores epistemológicos, culturais e econômicos que só se efetivam por meio da prática pedagógica.

Essa perspectiva de análise da educação pode ser acompanhada em algumas publicações individuais (Estudando as lições de coisas. Autores Associados/FAPESP, 2004; O liberalismo demiurgo: estudo sobre a reforma educacional projetada nos Pareceres de Rui Barbosa, Cultura Acadêmica, 2000) e em textos que integram obras coletivas (O legado educacional do século XX. Autores Associados, 2004; Estudos sobre a profissão docente. Laboratório Editorial/Cultura Acadêmica, 2001; O legado educacional do século XIX. Suprema, 1998).

A mesma temática geral de pesquisa é desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar tanto no ensino como na orientação de trabalhos de Mestrado e de Doutorado, que têm possibilitado uma abrangência maior das questões de pesquisa.  Embora oriente trabalhos na modalidade Iniciação Científica desde 1995, a orientação de trabalhos de Mestrado e de Doutorado apresenta-se anualmente como um grande desafio. É um longo aprendizado de convivência com a diversidade de personalidades, de tempos próprios, de exigências externas de órgãos de fomento, de participação em eventos científicos que dão ressonância ao Programa num processo sobre o qual não se tem nunca inteiro domínio e que é reiniciado a cada ingresso de outro orientando.

Quanto às atividades administrativas, já participei do Conselho do Departamento de Ciências da Educação, do Conselho de Curso de Pedagogia (de 1997 a 2003), tendo sido Coordenadora nos biênios 1999/2001 e 2001/2003, período de muito trabalho e de muita satisfação. A carga de trabalho foi decorrência do processo de reestruturação curricular empreendido e de suas interfaces legais, pedagógicas e administrativas, entre outras; a satisfação decorre do fato de termos conseguido estabelecer coletivamente um desenho curricular próprio, representativo das atividades de ensino e pesquisa de todo o corpo docente que nele atua. Fui também vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar de meados de 2003 a meados de 2004. Conhecer cursos "por dentro" e não só como docente nos obriga a considerar outras perspectivas e outras motivações.

Meus planos para o próximo ano não incluíam o exercício de atividades administrativas até o convite do Professor Marco Aurelio para a leitura e discussão de um texto no qual ele sintetiza as reflexões que vem desenvolvendo sobre a Universidade e, desde algum tempo, especificamente sobre a FCL.

Eu conheço o Marco Aurélio desde 1979 quando integramos o mesmo comando de greve (eu ainda era funcionaria da Administração) e enfrentamos uma longa batalha com o governo Maluf, circunstância que convidava à solidariedade. Nossas conversas se intensificaram quando eu realizava o doutorado pois, estudando as obras de Rui Barbosa, tinha seu trabalho sobre Joaquim Nabuco como referência. Motivados por essas duas figuras importantes para  a compreensão do período final do Império e inicial da República, conversamos sobre o Brasil, sobre nossos trabalhos, sobre nossas convicções. Marco Aurélio participou da Banca Examinadora de minha tese de Doutorado e aceitou prefacia-la quando transformada em livro. Continuamos conversando e foi se solidificando um respeito acadêmico mútuo: partilhamos muitas convicções (às vezes expostas oralmente, outras por meio de textos) e eu invejo seu estilo de escrever.

A interlocução sobre esse texto recente evoluiu para o convite/desafio de acompanha-lo na direção da FCL. Eu aceitei motivada pela análise e pelas proposições contidas no documento tornado público agora e por estar convencida de que o diálogo como estratégia administrativa democrática é condição para o estabelecimento de um padrão acadêmico diferenciado.   

 Embora ao longo desses anos todos nem tudo tenha sido "cor-de-rosa", foi na Universidade e no trabalho acadêmico que encontrei "minha tribo" e foi na FCL que encontrei as condições para a realização dessa carreira. Engajar-me agora na instância administrativa parece-me uma contribuição à Faculdade onde me formei intelectualmente.

Araraquara, outubro de 2004