
| Chapa Amilton Ferreira e Eunice Oba ::: | ||||
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Colegas da
Unesp:
Estamos lançando a nossa candidatura à reitoria e vice-reitoria da
Unesp fundados em um passado de muito trabalho profissional e
empenho institucional pela Universidade.
Professores dos câmpus de Rio Claro e
Botucatu, respectivamente, percorremos todas as fases da História da
Unesp como docentes, pesquisadores e administradores. Estamos em
condições, por isso, de contribuir, agora em nível de reitoria, para
auxiliar a Universidade a enfrentar a sua fase mais importante e
decisiva.
A história da Unesp pode ser dividida em
fases que caracterizam uma busca por coesão, eficiência,
autonomia: uma primeira fase de implantação, cujo principal
problema foi o de encontrar um denominador comum entre as diferentes
unidades, que anteriormente pertenciam a faculdades e institutos
isolados; uma segunda fase marcada pelo enfrentamento do poder
político autoritário, externo e interno, e de estabelecimento da
democratização; uma terceira fase de auto-afirmação e consolidação
institucional, com reitores e demais dirigentes eleitos
democraticamente, que por isso puderam administrar com o respaldo da
comunidade que os escolheu e assentar as bases administrativas e
acadêmicas para conferir à instituição o seu perfil atual.
Vivemos agora os inícios de uma quarta fase
na história da Unesp, que apresenta dois desafios da maior
importância, um acadêmico, outro político. Academicamente, é a fase
em que a universidade, consolidada e estável em
seu presente, se volta para o Brasil e para o mundo e pergunta se é
necessário mudar ou o que é necessário mudar para não perder o passo
do Futuro. E Futuro, neste caso, quer dizer o planeta globalizado e
integrado na Sociedade da Informação.
O
momento é preocupante. A conseqüência imediata dessas iniciativas
será a descaracterização da Unesp como universidade de pesquisa, e a
sua transformação numa entidade híbrida, perdida entre o ensino
médio e o superior. Tais equívocos estão apresentados sob as
denominações de Sistema
de Avaliação de Docentes, Centro de Convenções e de
Educação Profissional da UNESP, que seria localizado na Zona Leste
da Cidade de São Paulo, Plano de Desenvolvimento Institucional – PDI
e o Programa de Ensino a Distância – EAD.
O primeiro erro é o Sistema de Avaliação dos
Docentes. A
portaria que estabelece as bases da avaliação dos docentes comete
equívocos,
que, se mantidos, comprometerão a própria imagem externa da
universidade. A inexistência de referenciais teóricos transforma a
portaria em um documento descompromissado
com a história da universidade. Nivela todas as áreas do
conhecimento e das diferentes realidades das diferentes unidades num
único patamar. Desconsidera as características próprias do trabalho
acadêmico dos seus professores e ignora que a riqueza da instituição
universitária está na sua heterogeneidade, confundindo unidade com
uniformidade. É autoritária. Não prevê sequer pedido de
reconsideração à Comissão de Avaliação daqueles que se sintam
injustiçados na atribuição de valores às atividades que
desenvolveram no triênio, que poderão levar à alteração do seu
contrato de trabalho de RDIDP para RTC ou RTP. Desconsidera, e
coloca a atividade docente na universidade numa condição secundária,
pois, ao punir o professor, tirando-lhe o RDIDP quando não alcança
50 pontos na avaliação, por considerá-lo improdutivo, atribui-lhe
apenas atividades docentes, que são próprias do regime, como forma
de punição. Assim, define a
ministração de aulas na graduação como
um castigo, e não como a missão mais nobre da Universidade.
Não considera na avaliação o desempenho do departamento ou da
unidade a que está vinculado o docente e ignora os resultados
obtidos pelo árduo trabalho executado pelos Grupos de Avaliação
Local de cada unidade, que avaliou o desempenho
docente, discente e da unidade, iniciado em 2001 e concluído
em 2006 a pedido do Conselho Estadual de Educação.
Ora, a
auto-avaliação deu à Unesp respostas precisas que
poderão levá-la à elaboração de um Plano
de Desenvolvimento Institucional que buscará respostas a suas
carências reais e ao conhecimento de suas virtudes, passos decisivos
e anteriores a qualquer ação que se proponha a punir ou premiar seu
corpo docente. A avaliação proposta não é de fato uma avaliação,
pois, ela apenas mede, não avalia. A
verdadeira avaliação
presta-se ao acompanhamento dos rumos estabelecidos pelo plano
estratégico da instituição, e não pode
ser instrumento para punir
ou premiar. A avaliação institucional, que é um
acompanhamento da vida acadêmica como um todo, tem como
função diagnosticar as várias atuações da universidade e criar meios
para um processo contínuo de aperfeiçoamento, do qual o professor é
apenas uma das partes. Por estas razões,
a atual Portaria que estabelece os critérios da avaliação docente
deve ser desconsiderada e redefinida dentro de critérios que levem
em consideração os projetos do departamento, da unidade e da
universidade. A proposta, tal como apresentada, é apenas um
instrumento de intimidação, que promete punir sem avaliar as razões,
e coloca o docente como o único responsável pelos erros em sua área
de atuação.
O
segundo grave erro é a proposta da unidade da Zona Leste. É
difícil imaginar que uma proposta como a da Unidade da Zona Leste
tenha surgido dentro da própria Unesp, pois é uma proposta
inteiramente avessa à índole e à história da universidade e,
caso implantada, causará
sua desestruturação. Que proposta é essa? Criar na Zona Leste de São
Paulo uma unidade, não uma unidade universitária, mas de ensino
médio profissionalizante. Aprovada na última reunião do
Conselho Universitário de 2007, sem que houvesse tempo hábil para a
comunidade tomar conhecimento, prevê a instalação de uma unidade com
15.000 alunos, que corresponde a pouco menos de cinqüenta por cento
do seu corpo discente atual, mas voltada ao ensino médio e superior
tecnológico. Essa proposta, se levada a cabo, alterará radicalmente
o perfil atual da Unesp, provocando uma mudança completa de seu
paradigma. Nossa universidade deixará de
ser uma instituição de natureza humboldtiana,
voltada para a pesquisa, o ensino e a extensão, para tornar-se
uma entidade híbrida, que não se encaixa na
categoria denominada Americana ou Alemã e voltada para
a formação de mão de obra técnica. Seus professores receberão por
horas trabalhadas e serão recrutados no mercado de trabalho
tecnológico; terá uma administração com prevalência política,
centrada apenas na docência, pois
fatalmente perderá o princípio do tempo integral que hoje
caracteriza as três
universidades paulistas voltadas à pesquisa, em que o tempo integral
é insubstituível e a administração é feita por seus pares, sem
influências políticas, graças à atual autonomia.
O projeto dessa instituição híbrida prevê
que seus alunos deverão ser moradores da região, carentes,
deverão ter estudado em escolas públicas e poderão — por força da
denominação de unidade de ensino verticalizado
— matricular-se em unidades da Unesp sem prestar exames
vestibulares. Esse privilégio, que nunca foi sequer pensado para
estudantes dos colégios técnicos já existentes em nossa
universidade, foi a forma encontrada pela
atual administração para que a inclusão social se inicie antes do
vestibular. Trata-se, na realidade, da nova contribuição oferecida á
sociedade brasileira: a de incluir, excluindo, e contrariando todas
as normas legais do país e da universidade. Pior:
se assumir, como quer o projeto,
as responsabilidades que cabem à Fundação Paula Souza, que
possui nas 454 Fatecs e
Etecs, presentes em 345 municípios onde
freqüentam 132.000 alunos, a Unesp
deixará de ter como foco central o ensino alicerçado na
prática do desenvolvimento do método científico,
mudará seu destino, voltado desde
suas origens ao desenvolvimento do interior do Estado de São Paulo,
e se colocará como palanque
eleitoral para políticos.
Isso não pode
acontecer. Temos de rediscutir e neutralizar
esse verdadeiro atentado à integridade da Unesp.
Nossa universidade precisa dirigir
toda sua atenção às tarefas que lhe dizem respeito e que são muitas,
e deixar de se envolver em projetos que poderão vir a feri-la
mortalmente, afastando-a dos objetivos
que vem alcançando como uma universidade de reconhecida competência
nacional e internacional.
O terceiro erro
grave da atual administração foi a
proposta do PDI. A Unesp precisa de um Plano de Desenvolvimento
Institucional? Claríssimo que precisa. Mas não o que foi apresentado
equivocadamente como “plano”, dando-se um exíguo tempo à comunidade
para discussão e aprovação. Na generalidade e na confusão dos
numerosos objetivos e metas que coloca, sem definir um caminho
preciso, permitirá, por exemplo, que um futuro gestor da Unesp tome
iniciativas inesperadas, mas se justifique afirmando que tudo o que
faz está previsto no PDI. Essa discussão precisa ser feita com mais
tempo para análise e julgamento da comunidade, ao longo da próxima
gestão. O PDI deveria ser elaborado tomando como referência o
processo de auto-avaliação, documento este elaborado por todas as
unidades da UNESP durante o período 2001 a 2006 e que é o espelho da
universidade, permitindo identificar suas carências, seus pontos de
estrangulamento e, evidentemente, suas qualidades. Nesta linha de
pensamento, um PDI deveria conter
as ações que serão desenvolvidas no período estipulado para superar
as deficiências apontadas, deveria fixar um prazo menor, ser
objetivo e articulado com os resultados apontados pela
auto-avaliação, pois sabemos que são muitas as carências e que há
um limite imposto pela falta de recursos. Em razão da sua
própria origem e da maneira como foi concebida, nossa universidade
está em busca permanente de sua identidade. Que fazer para que se
torne a universidade que todos queremos e de que a sociedade
necessita? Esquecer de tudo o que foi
realizado e implantar um PDI incoerente,
destituído de referencial teórico e histórico, como se
estivéssemos iniciando uma nova universidade? Estamos convencidos de
que este não é o caminho! Propor a dissolução dos departamentos é
ignorar perfis, especificidades e idiossincrasias.
No bojo da
própria proposta do PDI o quarto erro, a exagerada ênfase dada
à EAD, proposta de educação a distância,
que precisa ser cuidadosamente estudada antes de ser implantada. Não
se pode simplesmente planejar que a Unesp vai implantar EAD nisto ou
naquilo, mas muito antes fazer uma análise mais cuidadosa desse
sistema, de suas possibilidades e dos modos pelos quais pode a
Universidade, paulatinamente, ir implantando, se e apenas se os
estudos preliminares considerarem sua viabilidade.
A EAD tem, realmente, um potencial
bastante grande para a Universidade assumir seu futuro na Sociedade
da Informação. Mas, por isso mesmo, por essa enorme importância, tem
de ser tratada com a máxima seriedade, com o máximo senso crítico,
com a máxima cautela, para que possa atingir, desde o início
a máxima eficácia. Se não tratada esta e as demais questões com o
devido rigor, se não tiver em seu planejamento a participação de
especialistas da própria Unesp que vêm estudando e discutindo com
profundidade tais temas, corre-se o risco de descaracterizar a
universidade, concebida como de regime presencial e de desestruturar
departamentos e cursos similares já
existentes e que serão oferecidos no novo formato.
A
reflexão revela que há um quinto erro na raiz dos outros quatro:
a concepção que os produziu, pois não foi dado tempo
suficiente para a comunidade discuti-las. Todos queremos uma Unesp
cada vez melhor, mas só é possível crescer a partir de alterações
progressivas, consensuais, nunca de decisões generalizantes fundadas
em modelos fictícios, nem tampouco por critérios estabelecidos mais
como uma forma de punir do que de estimular. É preciso reforçar os
mecanismos estruturais institucionais para que essa metamorfose
permanente em busca da modernidade represente crescimento gradual e
qualitativo e não padeça dos defeitos provocados pelo
estabelecimento de metas inalcançáveis. Um documento como o PDI,
neste sentido, deveria expressar com clareza objetivos, metas,
metodologia e cronogramas, justamente para permitir avaliar, ao
longo do tempo para o qual foi estimado, se a Universidade estará ou
não caminhando com segurança na direção das soluções dos problemas
hoje levantados.
Por estas razões,
cremos e defendemos a tese de que esses quatro graves equívocos,
Sistema de Avaliação de Docentes, Unidade da Zona Leste, PDI e EAD,
além de numerosos temas que dizem respeito ao futuro da Unesp, devem
ser colocados para discussão e deliberação de toda a comunidade
unespiana, ao longo da próxima gestão.
Esses erros só vêm acontecendo porque a Unesp está sendo
invadida por conceitos administrativos puramente
estatísticos, iludida pela publicidade de um falso crescimento
que resultará, de fato, em decadência, pela renúncia a seus
verdadeiros ideais de universidade de pesquisa
e presencial.
Para
neutralizar tais perigos, precisamos estimular a retomada do que a
Universidade sempre teve de mais legítimo ao longo do tempo: o
diálogo, a troca permanente de idéias, o debate construtivo. Este é
o dever dos administradores numa universidade que conquistou a duras
penas sua liberdade e sua democratização. É preciso conversar, é
preciso fazer trocas e até mesmo conflitos de idéias, é preciso
debater permanentemente. É preciso que o administrador deixe de ter
receio de apresentar uma proposta a toda a comunidade e ver essa
proposta rejeitada. A comunidade é soberana, o administrador age
para servi-la, e não para dominá-la.
Se
isso não for feito,
se a alta administração continuar afastada dos estudantes e avessa
ao diálogo com seus servidores, se não buscar conhecer o pensamento
de toda a comunidade expresso por meio de uma Assembléia
Universitária, a Unesp não terá força institucional para fazer face
aos desafios do presente e do futuro. E perderá tudo o que foi
conquistado por gerações anteriores de docentes, servidores e
estudantes. Precisamos evitar, unidos, que todos esses danos
aconteçam.
Caros
colegas, esta é a síntese de nosso
programa de gestão:
·
Não
queremos a Unesp como escola de ensino médio profissionalizante, mas
como universidade de pesquisa.
·
Não
queremos sistemas de avaliação que penalizem, mas que constituam
estímulos a docentes e servidores.
·
Queremos a Unesp administrada com transparência e diálogo aberto
entre administradores e comunidade.
·
Não
queremos a Unesp como um aglomerado de câmpus
rivais, mas como uma instituição una e harmônica.
·
Não
queremos uma Unesp com docentes e servidores mal remunerados, mas
profissionais cuja remuneração e cujos planos de carreira sejam um
estímulo permanente ao crescimento e aperfeiçoamento.
·
Não
queremos a Unesp envolvida em projetos arriscados, mas consciente de
que deve desenvolver-se de modo paulatino, de dentro para fora, com
o desejo e o pensamento unânime de sua comunidade.
·
Não
queremos uma Unesp subserviente a forças externas, mas uma Unesp
autônoma e permanentemente ciosa de sua autonomia.
·
Não
queremos uma Unesp com uma Graduação descaracterizada, com uma
Pós-Graduação pressionada a produzir a qualquer custo, com uma
Extensão carente de apoio e diretrizes superiores, mas uma Unesp com
uma Graduação que se orgulhe de sua função maior, com uma
Pós-Graduação competente e de boa qualidade e uma Extensão apoiada e
planejada institucionalmente pelos órgãos superiores.
·
Não
queremos uma Unesp envolvida em mal pensados projetos de
modernidade, mas uma Unesp capaz de refletir e ponderar para
escolher os melhores projetos, os melhores sistemas, os melhores
caminhos para ingressar com segurança na Modernidade e na Sociedade
da Informação.
Colegas: a Unesp não acredita em outros milagres que não o da
honestidade, da seriedade, do trabalho e, sobretudo, do diálogo e do
debate, para ser cada vez mais coesa, eficiente e
autônoma, único modo de fazer frente aos desafios dos novos
tempos. Esta é a nossa proposta.
Não deixem de ler nosso plano de Gestão para
inteirarem-se de modo mais minucioso de nossas propostas.
Vice-Reitora |