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Paulo Ghiraldelli Jr.
Um professor do ensino fundamental ganha ,
por mês , entre R$ 300 e R$ 800 nas escolas paulistas e
paulistanas. Qualquer um que tenha um carrinho de
cachorro-quente na frente da escola, não aprovado pela vigilância
sanitária, ganha mais que isso. O Estado de S. Paulo,
11/03/05, pág. A2
A vida na escola é insuportável, no Brasil. O aluno
adolescente ameaça fisicamente o professor. Se vier a se
defender, o professor tem contra ele o juiz, o pai, o delegado,
a mãe, o Conselho Tutelar do Menor e, enfim e mais
decisivamente, a gangue à que o garoto pertence.
Os prédios escolares, então, são ambientes de "filme
catástrofe". Computadores e vídeos, estragados, se
existem, ficam empilhados em bibliotecas fechadas. O aluno de
nariz sujo e o professor de "chinelo de dedo" se
misturam no martírio de um improvável aprendizado de conteúdo
que ninguém justifica. O quadro se completa com a venda de
roupas e bijuterias - um modo de sobreviver ali.
A estrutura do ensino? As autoridades não estão muito
interessadas nisso. A professora sai da escola e, uma vez no
transporte coletivo, toda suada, olha um outdoor com a foto do
secretário da Educação do Estado de São Paulo. Em vez de
encontrar um homem de terno e gravata, preocupado com a
calamidade em que se encontra o ensino público, vê no cartaz
um garotão com olhar esquisito e uma camisa rosa aberta no
peito - com medalhão. Dá para acreditar? Pior: descobre que a
pedagogia do dito cujo é a do... Paulo Freire? Piaget? Dewey? Não,
não! É a "do amor". O secretário da Educação
vende livros de auto-ajuda, livros de biografia da primeira-dama
do Estado de São Paulo e, também, sobre a "pedagogia do
amor".
E os pós-graduados em Educação? Os mestres e doutores em
Educação ficam eufóricos quando algum sociólogo fala horas
sobre a crueldade da "globalização" e sobre a desgraça
que, segundo tal cartilha, é fruto do tal de
"capitalismo". Esse pessoal entra em êxtase quando o
sociólogo (o mesmo) acusa o Banco Mundial de querer exercer o
"controle da educação do Terceiro Mundo". Essa
ladainha, eles, os mestres e doutores, repetem depois em suas
aulas na Pedagogia e nos cursos de pós-graduação - há quase
30 anos! E ainda contam que não mudam porque "ainda
vivemos sob capitalismo", ou seja, os problemas seriam
"os mesmos". No entanto, evitam ler o relatório a
respeito dos empréstimos dos organismos internacionais para a
educação nos países pobres. Pois, nesse caso, o Brasil é
apontado como o país onde os recursos nunca conseguiram trazer
os resultados positivos vistos nos outros países que receberam
os mesmos empréstimos.
E os formadores de professores do ensino fundamental? Não
sabem nem Matemática nem Ciências. Conhecem algo de História?
Alguns conhecem. Geografia? Bem, nem há Geografia no vestibular
da USP para entrar no curso de Pedagogia, sabiam? E Português?
Bom, há vários professores mandando suas dissertações e
teses para serem corrigidas por revisores que, enfim, são
obrigados a refazer todo o texto. Mas o problema mesmo, sem dúvida,
é a Matemática. Eles odeiam a Matemática e passam essa
indisposição aos formados em Pedagogia, futuros professores
das nossas crianças. Por isso o brasileiro não é
"analfabeto funcional", como dizem os estudiosos de
hoje em dia, mas se torna com facilidade um preguiçoso mental:
não gosta de Lógica e muito menos de Filosofia, quando esta
exige rigor de pensamento e raciocínio lógico-matemático. O
ódio da garota pedagoga pela Matemática é a base da
mentalidade de nosso professorado.
O nosso ensino é apontado nas estatísticas como o pior do
mundo. Nos exames mais recentes para verificação de
habilidades de compreensão de textos e Ciências, aplicados por
organismos internacionais, temos ficado nos últimos lugares,
mesmo competindo com países muito pobres, como a Bolívia e o
Equador. Mas os nossos gastos com a educação não são
diminutos, como dizem por aí, comparativamente com o resto do
mundo e guardadas as necessárias proporções.
Todavia, entre todas essas mazelas há uma que determina a
impossibilidade de pegarmos um fio da meada para tentar mudar
isso. Trata-se da carreira do professor - os méritos da
carreira.
No Brasil, o professor do ensino fundamental e médio não
pode ser promovido financeiramente por conta de desenvolvimento
intelectual, de um modo estranhamente diferente do que ocorre
com o professor universitário. Não adianta ele melhorar
intelectual e didaticamente, pois isso jamais será avaliado;
seu salário não vai subir substancialmente e suas atividades não
vão sair da rotina. O professor brasileiro não tem incentivo
financeiro, ou mesmo de outra ordem, para crescer
intelectualmente na atividade central de sua vida, que é
"dar aula". Para ganhar mais ele só tem dois
caminhos: a porta da rua ou a porta da sala - ambas para fora.
Se não sai da profissão, é para ser diretor de escola ou
supervisor de Ensino ou, então, para fazer mestrado e ir para o
ensino superior, ou seja, para sair da sala de aula. Ficar na
sala de aula e melhorar intelectualmente e, então, ser premiado
financeiramente por isso não é uma prática no Brasil. Isso
faz da atividade um tédio. Esse tédio mata nosso ensino.
Esse tédio é o que regra uma boa parte de nossa vida, uma
vez que gastamos muito tempo sob tal situação, pois, se não
somos professores, todos nós fomos alunos. Sendo ou não
professores, somos vítimas disso, dessa desconsideração pela
vida.
Deveríamos recusar-nos a tal sistema de degradação.
Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, está lançando (com
noite de autógrafos) seu 24.º livro (História da Educação
Brasileira, São Paulo: Cortez, 2006) na Bienal do Livro de São
Paulo, dia 17, às 19h30, no estande da Cortez. Home page: www.ghiraldelli.pro.br
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