MEU REINO POR UM CANUDO
Por Marcos
Fabrício Lopes da Silva (*) -
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O sociólogo
Gilberto Freyre, autor do clássico
Casa-grande & senzala, nos deixou várias
lições a respeito das "normas" que regem o
modus vivendi brasileiro. Muitos se lembram
da sua famosa (e contestada) tese da democracia
racial. Mas, analisando o conjunto da obra deste
pensador, considero que há ensinamentos mais
contundentes. Citaria, por exemplo, a
importância que Freyre conferiu à publicidade,
ao criar o termo "anunciologia" para estudá-la.
Segundo ele, o
conteúdo expresso nos anúncios de jornais do
século 19 demonstra as estratégias simbólicas de
manutenção da ordem escravocrata, sustentada
pelo direito de propriedade. Em suas
investigações, Freyre elevou a publicidade à
categoria de documento histórico, mostrando que
ela não fica nada a dever, enquanto testemunha
de uma época, às fontes tradicionais de
pesquisa, como livros, manuscritos e registros
cartoriais.
Essa perspectiva de Freyre deve ser levada em
consideração também nos dias de hoje,
considerando os altos investimentos realizados
pelas organizações em publicidade. Tudo em nome
da visibilidade e do lucro. Para alcançar esses
dois objetivos, nada melhor do que uma técnica
de venda em escala de massa, baseada em
artifícios de persuasão e estratégias de
convencimento, que visa a conquistar a atenção
do consumidor e a sua ação de compra. O
anunciante, por meio da publicidade, oferece uma
isca apetitosa, cheia de atrativos.
Essa "isca" é a marca, o produto, o serviço que,
ao prometer saciar a fome do público-alvo, busca
fisgá-lo mais pela emoção do que pela razão. A
arte dessa "pescaria simbólica" consiste em
seduzir o consumidor pelo encanto da melhor
"isca", ou seja, aquela que, dentre as várias
concorrentes, promete a saída mais fácil para a
resolução do problema do cliente. Tudo em nome
do seu bem-estar e conforto. Felicidade é a
palavra de ordem.
Prática e teoria
Mas há um sorriso amarelo por trás do "sorriso
colgate". E devemos escancará-lo para melhor
diagnosticar o problema. Caminhando pelas ruas
de Belo Horizonte, fui assaltado, em plena luz
do dia, por um outdoor de instituição
privada de ensino superior que estampava o
seguinte slogan: "O mercado aprova os nossos
alunos. Os alunos aprovam o nosso ensino". Logo
perguntei: e o professor (sequer ele é
mencionado no anúncio)? Qual é o papel do
educador nesse jogo?
A meu ver, o professor deve atuar no papel de
"estraga-prazeres" desse sistema, que
transformou a educação em um produto, em um
negócio, passando de direito universal garantido
pelo Estado a prestação de serviço gerenciada
pelos interesses particulares dos donos das
capitanias educacionais.
Sistema este
que transformou os alunos em clientes, o
professor em "unidade de custo ambulante" e que
faz do estudante uma extensão do mercado, e não
o contrário. Sistema este que transformou os
encontros pedagógicos em desencontros
demagógicos e que inverteu um processo
importante ao promover em demasia a carreira
profissional em detrimento do papel fundamental
do estudante: o de pensador. Sistema este que
enaltece a prática e desmerece a teoria, sendo
que a prática é a filha, ora obediente, ora
rebelde, da teoria. A prática aponta para a
realização. Mas para que exista a realização é
preciso dar vazão à abstração que a gerou.
Cidadãos e consumidores
Nessas tenebrosas transações, o diploma deixou
de ser a conseqüência de um processo singular de
aprendizado. Passou a ser a causa de um
investimento feito em busca de um retorno
imediato, garantido e sem muito esforço, de
preferência. De certificado de conhecimento, o
diploma passou à categoria de comprovante de
renda.
É muito perigoso e reducionista tratar o
estudante como cliente. Reza a cartilha
comercial que o cliente sempre tem razão.
Acontece que na educação a conduta é outra: deve
prevalecer o debate de idéias e de ações entre
os agentes envolvidos no processo, não havendo,
portanto, "o dono da verdade".
Nesse curto-circuito da educação como negócio,
as aulas vêm se transformando em espetáculo, no
qual o professor deve se comportar como um
showman, isto é, o "boa-praça" que recebe
seus alunos com piadas e tapinhas nas costas.
Enquanto isso, a turma ri à beça, sem saber na
verdade quem é o verdadeiro palhaço desse circo.
Ou fingindo não saber. "Eu finjo que ensino,
você finge que aprende", eis o pacto da
mediocridade roubando a cena.
Nesse caso, o professor deixa de ser um
provocador por excelência para atuar apenas como
um "facilitador". O estudante, por seu turno,
torna-se um receptor passivo da aprendizagem, em
vez de ser co-responsável pelo conhecimento
produzido e discutido em sala de aula. Nesse
reino desencantado, vale mesmo tudo pelo tão
cobiçado canudo. É o que oferta a instituição
privada de ensino superior, anunciante daquele
desastrado outdoor.
Marcado por uma faceta excessivamente
operacional, que deixa a base humanista em
segundo plano, esse estilo de fazer ensino
superior forma uma tropa de elite de cidadãos
imperfeitos e consumidores mais-que-perfeitos.
(*) Marcos Fabrício Lopes da Silva é
jornalista e professor.